top of page

Brasil é líder mundial em assassinatos contra LGBTs: jovem trans relata seus desafios em entrevista

  • Foto do escritor: Aline Sousa
    Aline Sousa
  • 18 de jul. de 2019
  • 11 min de leitura

Atualizado: 19 de jul. de 2019

No país que lidera o ranking de homicídios contra pessoas transgêneros, segundo dados publicados pela ONG Transgender Europe (TGEU) em novembro de 2016, Wendy Augustus Araújo Cavalcante (26) é apenas um dos milhares de brasileiros que vivem em constante luta contra a violência, exclusão social e o preconceito. Apenas em 2019, até o dia 30 de junho, 63 pessoas transexuais foram assassinadas no Brasil, segundo um mapa feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).


De adolescência difícil, Augustus sofreu preconceito desde cedo por conta de sua aparência e trejeitos físicos. O jovem acreditava não conseguir se encaixar por não possuir o estereótipo padrão das crianças de sua idade. Apesar dos obstáculos, possui um senso de humor leve e se define como um sonhador. Conhecido como o “Astronauta”, diz que às vezes sonha tanto que acaba por “viajar” por outros planetas.

Em seu canal no Youtube, Augustus pede respeito à classe LGBTQI+ | Vídeo: Canal 4Abas


Augustus é licenciado em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), atualmente trabalha como atendente em uma empresa de telemarketing, sendo, também, escritor e youtuber nas horas vagas. Homem trans em processo de transição, o jovem compartilhou com o SuaHistória um pouco de suas opiniões e vivências acerca da transexualidade e de suas experiências pessoais nessa etapa de sua vida:


SuaHistória: De que maneira você descobriu que se sentia desconfortável com o próprio corpo?


Augustus: (Respiração profunda antes de falar) Por volta dos meus 5 ou 6 anos de idade eu sentia que era diferente das outras meninas. Eu morava com alguns primos, e eles tinham um corte de cabelo bem curto, no estilo “surfista” e eu sempre dizia para a minha mãe que queria cortar igual. Mas ela nunca cortava, naturalmente. Eu sempre brinquei mais com os meninos e nunca gostei de boneca. Acho que o momento em que eu concretamente comecei a me incomodar foi na puberdade. Era tudo muito estranho. Quando começaram a crescer aquelas “coisas” (refere-se aos seios) e eu fiquei tipo: “o que tá acontecendo aqui?” (risos). Por volta dos 16 ou 17 anos eu costumava me olhar no espelho e achar esquisito. Aquela imagem não me agradava, eu não queria ter seios nem nada daquilo. Eu não queria ter aquele corpo.


Augustus é ativista das causas LGBTQI+ | Foto: Arquivo pessoal de Wendy Augustus

SuaHistória: Levando em consideração os pontos negativos e positivos, como tem sido o seu período de transição?


Augustus: Para te falar a verdade, o início de tudo foi um dos períodos mais difíceis, confusos e conturbados da minha vida. Pensa bem: um dia você se considera cis gênero (termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica com o seu gênero de nascença), menina, lésbica e depois você se reconhece como um homem trans (indivíduo que foi designada mulher ao nascer, mas que se identifica como homem). Foi muito pesado para mim, era uma montanha-russa de emoções. Foi uma "barra", precisei fazer terapia, fiz tratamento por uns dois anos por conta não só da transição, mas de problemas pessoais também. A transição funciona assim: tudo que tu conquistou com teu nome antigo é apagado. Eu renasci como Wendy Augustus Araújo Cavalcante e agora não tenho nada (refere-se a documentos e bens pessoais), porque toda a minha documentação está com outro nome. Tu realmente nasce de novo. Eu também estou com medo de iniciar a hormonização (tratamento hormonal que acontece durante a transição) que pretendo começar no próximo mês porque pode ocasionar problemas de saúde. Psicologicamente, você também fica afetado. Mas o tempo foi passando e hoje eu já me sinto bem mais seguro, livre e tranquilo.


SuaHistória: Embora a hormonização não seja um processo obrigatório durante a transição, você optou por fazê-la. Por que?


Augustus: Eu realmente não tinha interesse de fazer há um tempo, não sentia necessidade. Mas me incomoda muito a aparência feminina. A voz e tudo. Por não me sentir confortável, optei por fazê-la. Mas não é regra.


"O tempo foi passando e hoje eu já me sinto bem mais seguro, livre e tranquilo" | Foto: Arquivo pessoal de Wendy Augustus

SuaHistória: Você teve o apoio dos seus pais e familiares desde o início do processo de transição ou sentiu algum tipo de resistência no ambiente familiar?


Augustus: O jeito que minha família descobriu foi bem louco na verdade. Aconteceu um episódio específico em que sofri preconceito dentro de uma barbearia aqui em Teresina, e através da televisão, onde o ocorrido foi divulgado, todo mundo que não tinha ideia, fora os meus amigos mais próximos, ficou sabendo da minha transexualidade. No dia seguinte, eu acordei com uma mensagem do meu pai, dizendo que me apoiava e que eu devia ser um lutador. Eu chorei muito porque não era um posicionamento que eu esperava dele. Minha mãe foi a que mais resistiu. Resiste um pouco até hoje, mas já aceita melhor.


SuaHistória: Falando sobre esse episódio em específico que aconteceu com você em uma barbearia da cidade: o fato foi muito divulgado na mídia e você próprio relatou sobre a situação de preconceito que sofreu através de uma rede social. Pode contar um pouco mais sobre o ocorrido?


Augustus: Eu não imaginava que o post que fiz no Facebook iria gerar tantos compartilhamentos. No momento do relato, eu só quis desabafar, mas o que houve foi o seguinte: eu já tinha ido uma vez nessa barbearia para fazer um corte de cabelo e foi tranquilo. Mas quando voltei lá novamente, o cara disse que não cortava cabelo de mulher. E então eu respondi: "eu não sou mulher, eu sou um homem trans. Não tem porque você não cortar o meu cabelo". E ele respondeu que era o novo regulamento da empresa, que não podia fazer corte feminino e ficou insistindo nisso, mesmo que eu já tivesse cortado o cabelo antes. Voltei para casa extremamente chateado e constrangido. A postagem foi mais como um alerta para que ninguém fosse naquele local e passasse pela mesma situação que eu passei.


SuaHistória: Você acredita que por conta da rápida disseminação das informações na internet, as redes sociais têm ajudado nos processos de luta da comunidade LGBTQI+?


Augustus: Sim. Antes não tinha tanta informação. Hoje já dá para você perceber que existem grupos mais organizados. As redes sociais têm facilitado muito a propagação de notícias e conhecimentos. Ela é uma ferramenta muito útil e poderosa que, se for bem utilizada, pode ajudar bastante. Porém, ainda falta muito para chegarmos em um ponto de igualdade de todas as siglas do LGBTQI+, pois ainda tem muito preconceito dentro do meio.


SuaHistória: Quais as suas percepções sobre o atendimento em instituições públicas e/ou privadas à pessoas trans?


Augustus: Não sei se tenho respaldo suficiente para falar sobre isso, pois ainda não comecei o tratamento. Porém, eu sei que o SUS (Sistema Único de Saúde) é precário, por isso fiz um plano de saúde particular, por conta das melhores condições. Então vai ser mais fácil para mim. Para quem depende do SUS é, sem dúvidas, mais complicado, até por conta do preconceito também. Nem todo endocrinologista vai te entender, segundo relatos de conhecidos. Aqui em Teresina era para ter um ambulatório especializado no atendimento de trans e transgêneros. Esse projeto está em pauta há um tempo, mas nunca saiu do papel. Espero que se concretize, pois ajudaria bastante.


SuaHistória: Neste ano, você conseguiu definitivamente trocar seu nome de Jéssica para Augustus. Nos conte um pouco da sua experiência na mudança do nome de registro.


Augustus: Não foi um processo demorado. Teve todo um encaminhamento na Defensoria Pública para ser mais rápido. Foi trabalhoso a questão de pegar toda a documentação e levar no cartório para ser modificada. Depois de uma semana eu consegui obter o documento, então achei bem rápido. Trabalhoso, mas rápido. Assim que peguei a certidão de nascimento e vi meu nome lá e sexo masculino pensei: “É, agora minha vida está começando”. Foi o momento mais incrível da minha vida.


"Eu renasci como Wendy Augustus Araújo Cavalcante" | Foto: Arquivo pessoal de Wendy Augustus

SuaHistória: Com base em suas experiências pessoais, quais são os principais estereótipos atribuídos ou preconceitos sofridos a respeito da transexualidade?


Augustus: Cara, eu acho que os estereótipos mais fortes são em relação às mulheres trans. Quando você fala de mulher trans, você pensa logo em travesti, prostituta, garota de programa. Na minha opinião, as mulheres trans ainda sofrem mais que os homens trans, e os homens trans são vistos muitas vezes como fetiches por gays, de mulheres. Eu já passei por várias situações assim, onde homens gays me mandaram mensagem: "Ei, quero transar contigo". Eu não sou gay nem bissexual, sou hétero. Mesmo se fosse, eu não ficaria com um cara desses somente por curiosidade.


SuaHistória: Que tipos de comentários e atitudes são mais recorrentes contra você?


Augustus: Então, em relação a isso, os tipos de comentários mais recorrentes são bem curiosos: "Qual o seu nome de verdade?", "Como você transa?", e alguns comentários mais pesados de algumas meninas, como: "Tu até que é bonitinha, mas não tem o principal", essas coisas bem escrotas. As pessoas acham que não existe preconceito nesses casos, mas tem sim. A partir do momento que diz: "Nossa, tu é tão bonita, até parece homem de verdade", isso não é elogio, é ofensa. Muito ruim, inclusive. Esses comentários e atitudes são os que mais me irritam. Acho que é o que irrita todos os caras.


SuaHistória: No Brasil, a expectativa de vida de homens e mulheres trans no país é de 35 anos. Enquanto que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida ao nascer, em 2019, é de 80 anos para mulheres e de 73 anos para homens. Na sua opinião, o preconceito e a falta de acesso aos direitos básicos estão por trás desses números tão baixos de expectativa de vida?


Augustus: Com certeza, cara. Se tu parar para analisar direito as coisas, as mulheres trans são as que mais sofrem, na minha opinião. Muitas vezes são expulsas de casa muito cedo pelos pais, por conta dessa questão do machismo. São colocadas para fora de casa, então tem que ir para às ruas, para a prostituição, esses empregos informais que não são uma qualidade de vida muito boa, entende? Em relação aos homens trans, eu vejo uma ascensão maior no mercado de trabalho do que das mulheres trans. Eu acho que visualmente elas sofrem mais, os homens trans são mais passáveis nessa questão, mas não quer dizer que não sofram também. Tem casos de estupro e de mortes de homens trans, não é? Sobre a falta de acesso aos direitos básicos como educação e saúde, eu estava vendo uma matéria em que o presidente Jair Bolsonaro anulou um vestibular que era voltado para transgêneros e transexuais. A gente já não tem muitas oportunidades no mercado de trabalho e acesso à educação, e o Governo ainda faz isso. Nos atinge bastante. É decepcionante.


SuaHistória: Em um de seus vídeos no canal 4Abas, no Youtube, você diz que o seu maior desejo é não ser vítima de comentários preconceituosos, principalmente nas redes sociais. Você acha que a sensação de "terra sem lei" dos usuários contribui para que comentários depreciativos como os relatados no vídeo aconteçam?


Augustus: Com certeza. Esse vídeo foi justamente na época que eu estava sendo muito atacado no Instagram, por conta desse aplicativo (Sarahah), que eu até excluí na época. A parte ruim da Internet é que ela não tem filtro. As pessoas falam e fazem o que querem e fica por isso mesmo. A gente sabe que esses comentários existem, o que temos que fazer para se proteger é não filtrar eles, não absorver, deixar passar, porque se eu for me importar com isso é pior. Inclusive, eu acho até que as redes sociais, bem como a Internet de um modo geral estão contribuindo muito para que as pessoas se sintam cada vez mais depressivas. Na época da minha entrevista para uma emissora local sobre o ocorrido na barbearia teve muitos comentários também, mas preferi não vê-los, porque poderia ficar mal. Por conta da criminalização da homofobia ter sido aprovada recentemente, eu tenho esperança que isso diminua. Mas eu acho difícil, porque a gente vive em um país super ignorante, preconceituoso e arcaico.


SuaHistória: Augustus, você é formado em Filosofia e tem um livro intitulado de “Filosofia e um monte de outras coisas”. Pode nos falar um pouco sobre as motivações que levaram a compartilhar esses conhecimentos?


Augustus: Bom, o livro tem textos de vários autores e um dos capítulos é meu. O nome do capítulo que escrevi é “Ser autêntico no mundo de iguais”, onde eu falo da questão de às vezes você viver “padronizado”, você querer sempre se encaixar e ir em busca da perfeição. Casar, ter filhos, ter um bom emprego, você acaba esquecendo das outras coisas. Na época que escrevi esse texto eu estava passando por um momento difícil da minha vida. Então fiz essa reflexão da minha vida mesmo, eu estava me sentindo inerte por algumas coisas que estavam acontecendo, não saía do lugar, estava com medo. A partir disso, usei esses sentimentos para escrever esse texto, baseado em alguns autores da Filosofia que falam sobre existencialismo e tudo mais. Escrevi, mandei para o meu professor, ele gostou muito e acabou publicando no blog da Revista Revestrés, e aí tempos depois ele me falou sobre a possibilidade do livro. Neste ano esse meu professor veio falar comigo dizendo que iria dar certo e eu fiquei muito feliz. Eu realmente não esperava um texto que eu fiz despretensioso estar em um livro de Filosofia. Acho que é uma das minhas maiores conquistas, então a maior motivação foi essa minha reflexão daquele momento que decidi escrever.


Cerimônia de lançamento do livro "Filosofia e um monte de outras coisas" | Foto: Arquivo pessoal de Wendy Augustus

SuaHistória: Você é jovem e ativista há um tempo. Sente que agora está sendo visto e ouvido com mais respeito?


Augustus: Sim, no começo da transição eu não era muito respeitado, era muito atacado e até hoje não entendo o porquê de tanto ódio e comentário preconceituoso. Hoje tenho o pensamento e o olhar mais maduros em relação ao que as pessoas pensam e falam. Minhas convicções não são as mesmas de dois anos atrás, por exemplo. Quando as pessoas vêm e falam que me admiram, que gostam de mim, eu sinceramente não sei o porquê (risos), pois acho que não contribuí o bastante como eu queria ter contribuído para as causas, mas através das redes sociais e até mesmo em algumas palestras que já fui sempre busco defender as causas LGBTQI+. Então acredito que sim, eu tenho mais respeito hoje que no começo, pois estou mais maduro. Passei a me respeitar mais e acabo tendo mais respeito das outras pessoas.


SuaHistória: Apesar dos preconceitos vivenciados, você conseguiu superar os tabus criados pela sociedade e atualmente é escritor, militante de causas sociais e formado em Filosofia. Qual seria o seu recado para as pessoas que no passado não acreditaram no seu potencial pelo simples fato de você ser trans?


Augustus: Olha, sinceramente, acho que as pessoas não acreditavam em mim de jeito nenhum. Desde a minha infância ou até mesmo quando eu passei para o curso de Filosofia, muitas pessoas da minha família não acreditavam, ninguém imaginava que eu iria entrar na Universidade Federal, meu pai principalmente. Então foi um tapa na cara de todo mundo. Pelo fato de eu ser trans as coisas foram um pouco mais difíceis e eu me orgulho muito de onde eu cheguei, de todas as coisas que conquistei, pelas pequenas coisas que para mim foram de grande importância para todas as minhas conquistas, importantes ao ponto de eu chegar até aqui e estar dando uma entrevista para contar minha história. Eu fico muito orgulhoso de mim. Eu realmente não me importo se as pessoas vão ficar orgulhosas ou me dar parabéns por isso, eu me vejo agora bem mais decidido do que eu quero. Bom, o meu recado não seria para as pessoas que não acreditaram em mim, mas para as que acreditaram e que têm um sonho e acham que não vão conseguir. Pode ser clichê, mas a gente tem que acreditar nisso, a gente tem que acreditar no nosso potencial, porque no final é só a gente que vai estar lá pela gente. O caminho que nós trans percorremos é muito solitário, claro que tem os amigos, família, namorada que vão estar ao seu lado, mas eles não sentem o que você sente. Você é você. Então para as pessoas que acreditaram em mim desde o começo eu sou grato, e para as pessoas que não acreditaram em mim e veem hoje o que eu sou quero que saibam que elas também podem alcançar os sonhos delas. Eu sou a prova viva de que sonhar vale a pena, porque eu tinha um sonho quando era adolescente de colocar meu nome como Wendy Augustus. Eu nunca imaginei que isso poderia acontecer na minha vida, mas hoje eu sou o Wendy Augustus.



 
 
 

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
bottom of page