Em Teresina, ONG presta atendimento psicológico gratuito à depressivos e enlutados
- Clayton Gomes

- 5 de ago. de 2019
- 4 min de leitura
Considerada o "Mal do Século" pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão é um transtorno mental que acomete mais de 300 milhões de pessoas no mundo. A doença afeta fisicamente e emocionalmente o indivíduo, causando tristeza profunda, desprazer com o que antes dava alegria, baixa autoestima e incapacitando-o. Sabendo da necessidade de se discutir e combater esta doença, em maio de 2013, na cidade de Teresina (PI), foi fundado por Késia Mesquita (34) o Centro Débora Mesquita (CDM).

Organização Não Governamental (ONG), o CDM tem como objetivo informar e sensibilizar a sociedade sobre as causas, sintomas e tratamentos disponíveis para os transtornos psíquicos que acometem as pessoas, atuando na prevenção e na pósvenção do suicídio. Além disso, o Centro trabalha com o acolhimento de enlutados, em especial os que perderam entes queridos por suicídio.
O Centro surgiu a partir de um drama familiar que acometeu Késia Mesquita, onde sua irmã veio a óbito por suicídio. Em memória, à ONG foi dado o seu nome, Débora Mesquita. “Com toda a experiência que eu e minha família tivemos, chegamos à conclusão de que não tínhamos serviços de atendimento especializados na área, não tínhamos informação para a população ou para a família que tem alguém em crise e que faltavam ações de acolhimento aos familiares enlutados”, pontua.
Voltado para o atendimento de pessoas com transtornos psíquicos e enlutados, o CDM conta atualmente com oito (8) psicólogos voluntários que fazem atendimentos gratuitos aos assistidos. Estima-se que o Centro atende cerca de 130 pessoas por mês, fora o grupo dos enlutados, que recebe cerca de 10 pessoas a cada encontro.

Devido ao fato de não dispor de grandes recursos financeiros, visto que a ONG não recebe nenhum apoio neste sentido, o Centro se dedica em oferecer atendimento psicológico especializado prioritário para pessoas em grande sofrimento emocional, em especial àqueles que já tentaram cometer suicídio ou que podem cometê-lo, mas não têm recursos para pagar um profissional particular.
“Apesar das dificuldades, o que me motiva a seguir à frente do Centro é o amor de todos os voluntários. Não faço esse trabalho só, sou apenas uma parte dele. Além disso, os resultados me motivam. Deus nos entregou essa missão. Ele sempre proveu tudo até aqui, inclusive pessoas que se dedicam inteiramente a esse trabalho. Ver vidas ressignificadas e ajudadas não tem preço.”

Segundo Késia, discutir a depressão é de suma importância por se tratar de uma doença, e como qualquer outra enfermidade, se não tratada, pode ocasionar uma morte precoce. Por conta disso, há a necessidade de desmistificar os estigmas preconceituosos em relação à depressão, como se ela fosse algo inerente à alma, quando na verdade é uma doença física e mental que altera a bioquímica do cérebro, afetando e incapacitando o depressivo.
“A importância de trazer essa discussão é conscientizar as pessoas de que é uma doença que precisa de tratamento, e ele existe. Nós combatemos essa doença e tantas outras com informação feita de maneira responsável e com conscientização, trazendo o assunto à tona. Campanhas precisam ser feitas pela mídia, pelas lideranças religiosas, escolas, empresas e outras instituições. Todas precisam se envolver no intuito de combatê-la.”
Questionada a respeito da depressão ainda ser um tabu no atual contexto, ela concorda e afirma que o assunto só passou a ser debatido e combatido há pouco tempo. Os avanços existem, mas o tabu ainda precisa ser desfeito. Késia pontua que pelo estigma que acompanha as doenças mentais, as pessoas têm vergonha, não falam e nem sabem como falar sobre.
“Ninguém consegue quebrar um tabu como esse de um dia para o outro, mas nós estamos avançando e mostrando para quem sofre que não é uma vergonha, e sim que há a necessidade de buscar por ajuda, e que os serviços de tratamento mudaram bastante. Além disso, é necessário que combatamos a psicofobia, tanto por parte de quem sofre de determinado transtorno e se recusa a buscar amparo psicológico quanto àquelas pessoas que se desfazem e maltratam outras que estão em tratamento, prejudicando mais ainda a situação delas.”

Todas as gerações têm suas epidemias. A atual, por exemplo, está mais suscetível à depressão e à transtornos de ansiedade devido ao próprio ritmo de vida que se tem dado nas últimas décadas. É um ritmo de vida frenético, até mesmo selvagem, no sentido de que as pessoas só correm para ter e não têm mais tempo de sentir e sofrer. Devido a esses fatores, a depressão tornou-se mais evidente no século XXI.
“A nossa geração tem pouca resistência à frustração. Muitos pais querendo poupar os seus filhos de todas as dores do mundo estão amputando-os emocionalmente e eles não têm nenhuma resiliência. As redes sociais, esse mundo de comparações, padrões de beleza e competitividade, a violência e a corrupção, tudo isso leva a níveis maiores de estresse, de ansiedade, de pânico e obviamente de depressão.”
Segundo Késia, o ato de ajudar quem sofre de problemas psíquicos não se resume aos psicólogos, mas às “pessoas comuns” também. “Todos nós, mesmo não sendo psicólogos, podemos ajudar pessoas em sofrimento apenas escutando, não julgando, não dando conselhos clichês, acolhendo-as e levando-as a um tratamento qualificado, pois muitas vezes as pessoas não conseguem sozinhas”, explica.
Além do trabalho presencial, o Centro atua por todo o Brasil por meio de palestras, onde Késia é convidada e reconhecida por conta de seu trabalho em Teresina. As palestras têm como objetivo quebrar barreiras e tabus e trazer as pessoas à reflexão. “Após as palestras, algumas pessoas chegam e falam que estão mudando de ideia sobre alguns temas e dizem que estão compreendendo melhor que pessoas que sofrem de algum transtorno psíquico não são loucas ou incapazes. Afinal, a depressão é uma disfunção mental como qualquer outra disfunção em nosso corpo”, acrescenta.

A idealizadora diz-se muito feliz por ver pessoas ressignificando suas vidas, o que lhe dá um propósito de vida. Ela afirma, também, ter o sonho de tornar o CDM maior e com a possibilidade de atender cada vez mais pessoas. “Meu sentimento é de responsabilidade, pois é um trabalho que exige muito e eu sei que não poderia fazer só. Sou muito grata a tudo isso. Tenho o sonho de que o CDM possa funcionar em regime de plantão, ter uma estrutura de emergência e uma equipe multiprofissional além dos psicólogos, como pedagogos, assistentes sociais, psiquiatras e outros profissionais que possam agregar, para que possamos quebrar mais tabus relacionados à saúde mental, amparar mais pessoas e, consequentemente, salvar vidas”, finaliza.



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